Eu Não


“Há minutos mais curtos do que outros, não são todos iguais. Nem na duração, nem na quantidade de informação de que estão grávidos”.

Este era o tipo de frase que eu deixava sobre a mesa de um qualquer jantar sabendo de antemão que ia ser percebida de uma das muitas maneiras erradas de a perceber. Aliás, e isso eu sabia, a confusão era inevitável. Por ter sido formulada uma opinião incompleta e impulsiva num tom de voz de afirmação definitiva, como que macerada e polida por muitos anos de pensar nela. A inevitável discussão entre os convivas era acesa, sempre.

Não tinha preparadas estas eloquentes proposições e muito menos ia a esses jantares à espera do melhor momento para as proferir, não. Apesar de o ser, também não as dizia por ser arrogante, como se fosse necessário juntar alguma coisa às minhas idiossincrasias.

Dizia-as porque nunca conseguia evitar o momento em que me aborrecia de morte.

Em retrospecto, percebo que não era nenhum aborrecimento mas sim uma descarga compensatória do meu corpo ao sentir chegar um momento crucial do evento. Após a fome estar saciada e o álcool ter começado a fazer zumbir o cérebro como uma máquina bem oleada a alta velocidade, chegava sempre a altura em que o debate, inocente até ali de qualquer veleidade de se imiscuir em assuntos para mim tão pouco apetitosos, desviava toda a sua atenção para tudo aquilo que os presentes acreditavam ter de partilhar, do mais profundo das suas almas, com toda a urgência, o seu credo. Ou pelo menos de tão profundo quanto conseguiam chegar.

Como sempre odiei esse momento. Sentia-lhe o cheiro, a progressão, como uma fuga. Nunca me senti preparado para tamanha violência.

E assim, na maior parte das vezes, essas banalidades perfeitamente oleadas e à distância de mais um golo de vinho tinham o efeito desejado: dizia-se mal e bem, concordava-se, discordava-se, discutiam-se-lhes os méritos e os deméritos, mas sobretudo, sobretudo nunca comigo.

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A Sala dos Globos

Para a meninazabel


A sala dos globos parecia ser o sítio da casa onde, antes do jantar, todos se juntavam.

Nunca percebeu exactamente porquê: a casa era enorme e tinha outras salas, maiores até, com sofás confortáveis e lugares disponíveis; apesar disso tudo a sala dos globos era sem excepção a preferida. Se calhar, tal como os outros convivas, sentia-se perfeitamente à vontade ali, por razões difíceis de explicar.

Das primeiras vezes que lá foi, antes de conhecer o resto da casa, ainda pensou que fosse por causa da vista única sobre o Tejo, mas cedo descobriu que a casa tinha muitas e muito bonitas vistas noutros pontos, não podia ser isso. Também, a única memória que tinha da música a tocar era Charlie Parker num volume tão descaradamente alto que até lhe parecia apropriado, o que para alguém sem nenhuma paciência para Charlie Parker, era mais um mistério.

A única explicação que parecia sobrar eram os globos terrestres em si, que havia de todos os tamanhos e estilos, antigos e modernos, em plástico, metal e cartão. O espelho por cima da lareira já nem se via, atulhado que estava de globos.

A cada vez que ia lá a casa, descobria mais uns tantos. Contava-os todos, sempre e acabava sempre irritado por não chegar duas vezes ao mesmo número. Nunca se esqueceu que da primeira vez chegou aos 55, mas foi a única, também. Tentou vários métodos: por tamanhos, dos mais pequenos para os maiores (50), por sítio, avançando o copo como se de um marcador se tratasse (53), por estimativa, talvez já conformado com a ideia de que nunca iria saber quantos globos existiam ao certo na sala (58). Ficou tão obcecado com os globos que chegava a contá-los três e quatro vezes numa só noite, de várias maneiras, comparando resultados (51, 48 e 56).

Só reparou que a sua frustração se estava a aproximar da indelicadeza quando um dia, ainda no elevador, desenhou mentalmente um plano para tirar os globos todos para a sala da televisão ao lado, um a um, do primeiro até ao último. “Não pode falhar” pensou “pode ser que leve tempo, mas vou ficar a saber”.

Felizmente foi distraído por outras conversas nessa noite mas ao sair, do corredor, olhou para a sala dos globos outra vez como que despedindo-se de uma intolerável e doce dor.

Até ao próximo jantar.

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Amigos

Para o P, de quem tenho saudades


Só momentos depois de o ter dito é que me apercebo da expressão meio triste, meio intrigada com que ela me olha. Dou-me conta que não quero que ela me veja como se eu fosse uma daquelas pessoas sobre as quais ela deve ler ou que aparecem em filmes independentes neo-zelandeses que ganham imensos prémios em festivais.

Normalmente estar-me-ia nas tintas; as conversas que tenho tido nos últimos anos não têm nunca seguido um caminho em que a frase “não tenho amigos” possa ser um dos seus passos plausíveis. Aliás as conversas que tenho tido não têm tido passos sequer. Plausíveis ou não.

Mas esta conversa não estava a ser como as outras e eu não me queria deixar catalogar com uma frase tão óbvia. Ou tão oca.

“Tenho amizades, amigos não. Não cultivo amigos é só isso”. Sorri. E arrependi-me logo de seguida.

Conhecemo-nos há menos de uma hora. Estávamos os dois na livraria a folhear a mesma revista, na mesma página e rimos ao mesmo tempo da mesma parvoíce.

Daí até estarmos sentados à mesa de um café não foi só um passo, mas sim uma série de passinhos que ela me obrigou a caminhar. Uma coisa é olhar e sorrir para o outro ao mesmo tempo e deixar a coisa por aí, outra é perguntar-me “o que é que eu acho” do autor do artigo.

“O que é que eu acho?” pensei. “Como assim, o que é que eu acho? Acho um monte de coisas, e então?”

Respondi-lhe: “gosto muito”. Sorri. E arrependi-me logo de seguida. Raisparta, já sinto a enciclopédia a borbulhar dentro de mim e mais minuto menos minuto vou começar a debitar toda a trivia de que me consigo lembrar sobre o Vonnegut e não vou conseguir parar. Merda. Já está.

Ela olha-me com um sorriso que tanto pode ser assustado, desconfiado, condescendente ou maravilhado. Excluo logo maravilhado. Decido parar de falar. Pode ser que ela pare de sorrir.

Não só não pára como diz: “Está muito ocupado agora? Isto não é nada o meu género, mas gostava mesmo de continuar esta conversa sentada. Chamo-me Teresa, já agora.” Eu digo que não, que não estou nada ocupado. Ainda me passa pela cabeça perguntar-lhe quem é que poderia estar muito ocupado a ler revistas numa livraria, mas evito a tempo. Ela continua a sorrir, à espera que eu diga mais qualquer coisa, mas não me sai nada.

“Vamos então?” Faço um gesto largo com a mão, como quem a convida a ir à frente, inclinando ligeiramente a cabeça, bem-educado mas não subserviente.

Vi isso num filme antigo com o Burt Lancaster a fazer de nobre italiano e como achei muito chique, passei a copiar. Isso e o hábito que o Benny tinha de sincronizar o aperto de mão com uma ligeira inflexão da cabeça para a frente. Vi-o a fazer o gesto anos e anos e poderia jurar que quase se ouvia o bater dos tacões dos sapatos. Ele diz sempre “entzückt” e não “servus” ou “grüssgott” como seria de esperar de um vienense da nossa idade quando é apresentado a alguém. Pensando bem na idade, ele é a única pessoa que eu conheço que beija, muito sério, a mão das raparigas, mas para isso já me falta a lata. Comecei demasiado tarde.

Ela pergunta-me se conheço algum sítio perto que não seja uma pastelaria barulhenta. Claro que logo à noite, quando estiver em casa vou-me lembrar de vinte sítios maravilhosos para se estar e conversar, mas isso é logo à noite. Neste preciso instante não me lembro de nenhum, a não ser pastelarias barulhentas. “Este não é bem o meu bairro” desculpo-me, “assim de repente…” Olho para o tecto da livraria e reparo pela primeira vez nas esculturas de querubins em talha de madeira. Os querubins não ajudam. A bem dizer até parecem ter percebido o enorme vazio que vai na minha cabeça e o quanto isso os diverte.

“Ah! Mas sei eu de um sítio ideal” diz a rapariga e com isto põe-se a andar. Não sei bem se devo segui-la, mas na dúvida vou atrás dela. Sem parar, volta-se para trás e sorri outra vez como quem está a jogar a qualquer coisa. Vai num passo decidido que eu acompanho como se o tivesse feito desde sempre. Lanço um “pfff” superior aos querubins.

Saimos da livraria e logo após duas esquinas entramos numa casa de chá. Do lado de fora parece uma padaria do século dezanove, mas na montra diz de facto “Casa de Chá”. Lá dentro não está ninguém a não ser o empregado por detrás do balcão que regista a nossa entrada com o esboço de um “boa tarde” ligeiramente murmurado.

Não trocámos uma palavra desde a livraria. Sentamo-nos. Ela coloca uma pilha de livros em que eu não tinha ainda reparado em cima da mesa, mas com os títulos das lombadas de pernas para o ar. A única coisa que me ocorre é que vai ser difícil tentar ler o título dos livros discretamente e falar ao mesmo tempo. Este género de problema pode consumir partes substanciais de alguns dos meus dias e hoje é um desses dias.

Há qualquer coisa de familiar aqui. Assim que me sentei ainda achei que pudessem ser os tampos de mármore redondos das mesas mas agora já não tenho a certeza. Se calhar é a acústica, meio abafada pelas cortinas de veludo nas janelas. Ou então é o cheiro a marzipan e a chá preto. Quase me espanto quando o empregado se aproxima da mesa e nos pergunta, não em alemão, mas em português o que é que queremos tomar.

Ela pede um chá de erva-príncipe e eu uma água mineral.

A Teresa fala numa torrente de palavras que não jorram, brotam literalmente da palavra anterior. Um fluxo constante e melodioso e eu não estou a apanhar metade. O Benny diria que eu estou perdido nos olhos dela, mas o Benny sempre largou estas banalidades no ar como se estivesse à espera que o próprio Shakespeare aparecesse nesse instante para lhe perguntar se podia usar isso na sua próxima peça.

Não, o que me fascina é a voz. segura, colocada e com uma amplitude que faz lembrar uma variação de Goldberg. Sempre as mesmas três notas, mas com que abundância de combinações. E está habituada a conversas, nota-se pelas pausas intuitivas que ela faz para fazer com que eu vá dizendo qualquer coisa. E eu vou dizendo. Sempre em discussão acesa comigo mesmo, reprovando a facilidade com que me entrego a um debate cujo pico creio conseguir adivinhar.

Dela já sei que é mais nova do que eu (não muito), que é divorciada (muito) e que “vai fazendo uns negócios” (muito poucos), eufemismo que me leva o seu tempo a traduzir em “tenho dinheiro na família, faço negócios para não me aborrecer”. É bonita, quero dizer tem as medidas certas, a roupa certa e o sorriso just-like-so. Não custa perceber que deve fazer sucesso sem se esforçar, se bem que não pareça preocupada com isso. Nem com fazer sucesso nem com esforçar-se.

Noutra altura ter-me-ia apaixonado por ela antes dela sequer pegar na revista. Hoje estou ainda a decidir se estou ou não zangado por me ter deixado arrastar para um sítio onde não tenho pé.

Por enquanto vou nadando.

“Isso não pode ser. Se não tens amigos, está na altura de arranjar uns. Nem que sejam os meus”, diz.

Ainda me pergunto se vale a pena explicar-lhe exactamente o que é que eu queria dizer com isso dos amigos, mas desisto. Ela vai querer ter mais da minha vida, eu sei, e não vou conseguir convencê-la agora de que algures no futuro lhe vou decepcionar uma expectativa qualquer que ela está laboriosamente a construir neste preciso momento.

A única coisa a fazer é tentar que ela perceba já a amplitude das suas futuras desilusões. Assim, para ela, sou uma pessoa sem amigos. Isto para já.

Se calhar depois explico.

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A Rapariga Que Só Olhava às Vezes, Talvez


Só voltou a casa do João dezoito anos depois.

Já não era a mesma casa, claro. A festa, essa, parecia exactamente a mesma. Até a Laura estava lá, como se o destino quisesse com muita força e simultaneamente atar pontas soltas e mostrar-lhes outras que nunca seria possível atar.

Lembrou-se de como ela o tinha acusado na altura de falta de humildade e o quanto isso o confundira. Só agora, passados estes anos todos, se apercebeu de que quem tinha razão era ela. Não porque não tivesse sempre suspeitado isso de si, não: era mais por ver esse seu perfeito defeito ser-lhe mostrado, ser-lhe devolvido, carregando dezoito anos de silêncio ou dezoito anos de pequenas e insignificantes tragédias, o que vem dar ao mesmo.

Encolheu mentalmente os ombros a meio da conversa com a Laura, sorriu, pediu desculpa e afastou-se. Ter que se explicar em voz alta ainda o assustava com a mesma violência de sempre. Noutra altura, pensou. Ou então nunca. Agora é que não.

Só reparou na rapariga que parecia olhar porque o João falava com ela, apontando-o com o dedo. A rapariga olhou e não pareceu particularmente intrigada. Sorriu-lhe ao passar por ele, em passo rápido em direcção à cozinha. Ele só teve tempo de reparar que era bonita, que o olhou directamente nos olhos e que dela emanava um qualquer desvairo que se adivinhava impossível de qualificar. Tentou esquecê-la logo ali. Conseguiu.

Como sempre nestas ocasiões ia bebendo e falando por não ter mais nada que fazer, apostando consigo próprio a cada conversa que era capaz de classificar os contornos do interlocutor do momento, antes mesmo de ele os explicar; inevitavelmente cediam à tentação de o fazer. Chegou a pensar, assustado, que talvez fosse até uma norma social que ele desconhecia por completo, obrigatória em agregações de pessoas nestas festas. Para não pensar mais nisso decidiu que devia ser simplesmente porque apesar de cada um verificar os seus alicerces de maneiras diferentes, muitos acabam por se imitar. Seja como for, foi ganhando as apostas que, uma vez ganhas, se tornavam irremediavelmente aborrecidas.

Pelo meio, muito de vez em quando, via a rapariga, do outro lado da sala. Não chegou a perceber se ela olhava, por muito curtos momentos, com o mesmo olhar directo ou se era ele quem o imaginava. Ela acabou por se ir embora, muito antes dele, a quem sobraram dias a lutar com a incerteza. Não sabia se era ela quem olhava e se sim, para que olhava.

Não era importante que fosse bonita, apesar de ajudar, claro. O que o deixou inquieto foi a suspeita, numa microscópica fracção de segundo, de que só havia duas explicações igualmente aterradoras para o olhar da rapariga, esse olhar que podia não ter sido nenhum.

Podia ser engano seu e então o seu próprio desvairo não tinha um lar, ou então, e pior ainda, não era engano e tinha.

Como nunca mais a viu, nunca iria saber e isso serviu-lhe de consolo.

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Não Te Zangues Assim


Não te habituaste já a olhar para o espelho de manhã e ver uma mancha disforme que ainda não se deitou?

Hoje só é diferente porque sonhaste e te lembraste do teu sonho e no teu sonho levantavas vôo e quando acordaste estavas ainda a cinco centímetros acima da cama e então pensaste que ias acordar mas já estavas acordado e deixaste a manhã afagar-te e a manhã disse-te assim:

“Eu sou só outro sonho e tu tens asas em todos os sonhos”

Só estás assim porque sentiste uma alegria a ferver dentro de ti, uma vontade de cantar e correr e abraçar toda a gente e escrever quilómetros.

Não é de ti que se trata. Não tens razão de ser egoísta assim; se te desses conta que só sentes o que sobra de teres existido no sonho de outra pessoa, não te zangavas assim contigo.

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Não Quero Mais Isto


Percebo-te lindamente.

No entanto, e sem querer retirar um nanograma que seja àquilo que é objectivamente a pouco óbvia façanha de reconhecer um marco, há que admitir que isso não ilumina em nada o mistério que é tudo o que vais querer a seguir.

Teres chegado aqui é um alívio sim, mas tens a noção de que não é aqui que acaba, não tens?

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Reflexo


Não sei se existem olhares que contêm mais significado do que outros. Se calhar só se pode saber pelo reflexo, mas se assim for então isso quer dizer que não contêm nenhum.

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Português


Olha,

Quando escrevo em português sinto-me desprotegido e acho que é por isso que o faço pouco. Não é por causa da língua me ser estranha, antes pelo contrário: é por ser tão próxima do meu núcleo, seja lá o que isso for.

Sabes?

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