A Rapariga Que Só Olhava às Vezes, Talvez


Só voltou a casa do João dezoito anos depois.

Já não era a mesma casa, claro. A festa, essa, parecia exactamente a mesma. Até a Laura estava lá, como se o destino quisesse com muita força e simultaneamente atar pontas soltas e mostrar-lhes outras que nunca seria possível atar.

Lembrou-se de como ela o tinha acusado na altura de falta de humildade e o quanto isso o confundira. Só agora, passados estes anos todos, se apercebeu de que quem tinha razão era ela. Não porque não tivesse sempre suspeitado isso de si, não: era mais por ver esse seu perfeito defeito ser-lhe mostrado, ser-lhe devolvido, carregando dezoito anos de silêncio ou dezoito anos de pequenas e insignificantes tragédias, o que vem dar ao mesmo.

Encolheu mentalmente os ombros a meio da conversa com a Laura, sorriu, pediu desculpa e afastou-se. Ter que se explicar em voz alta ainda o assustava com a mesma violência de sempre. Noutra altura, pensou. Ou então nunca. Agora é que não.

Só reparou na rapariga que parecia olhar porque o João falava com ela, apontando-o com o dedo. A rapariga olhou e não pareceu particularmente intrigada. Sorriu-lhe ao passar por ele, em passo rápido em direcção à cozinha. Ele só teve tempo de reparar que era bonita, que o olhou directamente nos olhos e que dela emanava um qualquer desvairo que se adivinhava impossível de qualificar. Tentou esquecê-la logo ali. Conseguiu.

Como sempre nestas ocasiões ia bebendo e falando por não ter mais nada que fazer, apostando consigo próprio a cada conversa que era capaz de classificar os contornos do interlocutor do momento, antes mesmo de ele os explicar; inevitavelmente cediam à tentação de o fazer. Chegou a pensar, assustado, que talvez fosse até uma norma social que ele desconhecia por completo, obrigatória em agregações de pessoas nestas festas. Para não pensar mais nisso decidiu que devia ser simplesmente porque apesar de cada um verificar os seus alicerces de maneiras diferentes, muitos acabam por se imitar. Seja como for, foi ganhando as apostas que, uma vez ganhas, se tornavam irremediavelmente aborrecidas.

Pelo meio, muito de vez em quando, via a rapariga, do outro lado da sala. Não chegou a perceber se ela olhava, por muito curtos momentos, com o mesmo olhar directo ou se era ele quem o imaginava. Ela acabou por se ir embora, muito antes dele, a quem sobraram dias a lutar com a incerteza. Não sabia se era ela quem olhava e se sim, para que olhava.

Não era importante que fosse bonita, apesar de ajudar, claro. O que o deixou inquieto foi a suspeita, numa microscópica fracção de segundo, de que só havia duas explicações igualmente aterradoras para o olhar da rapariga, esse olhar que podia não ter sido nenhum.

Podia ser engano seu e então o seu próprio desvairo não tinha um lar, ou então, e pior ainda, não era engano e tinha.

Como nunca mais a viu, nunca iria saber e isso serviu-lhe de consolo.

#Português#Portuguese

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