As Dobras dos Pensamentos

Bass

Gould tocou durante duas horas, directamente para dentro das pessoas, com emoção. Tinha tantas notas nos dedos que, quando tocava, o seu esforço não era fazê-los mexer, era refreá-los, para que não tocassem tudo de uma vez. Tocar, para ele, era impedir os dedos de se mexerem. Muitas vezes pensava assim na música: um dó sustenido que poderia ter sido, um fá que quase se pronunciou, um si que lhe ficou preso na unha, um lá bemol que tropeçou. Era como a vida, como as pessoas que, ao escolherem ser alguma coisa, rejeitam todas as outras, uma infinidade de coisas, uma enormidade que lhes fica pendurada nas unhas, nas dobras dos pensamentos, nos cabelos espigados. É assim que se faz uma música, e é assim que aparece uma imagem no espelho, bem definida, recortada por tudo o que não somos. Gould tocou derramando-se.

Afonso Cruz — Jazz, Rosas e Andorinhas (Granta Portugal #1 – Eu)

#Afonso Cruz#Granta

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