Amigos

 

(Para o P, de quem tenho saudades)

Só momentos depois de o ter dito é que me apercebo da expressão meio triste, meio intrigada com que ela me olha. Dou-me conta que não quero que ela me veja como se eu fosse uma daquelas pessoas sobre as quais ela deve ler, ou que aparecem em filmes independentes neo-zelandeses que ganham imensos prémios em festivais.

Normalmente estar-me-ia nas tintas; as conversas que tenho tido nos últimos anos não têm nunca seguido um caminho em que a frase “não tenho amigos” possa ser um dos seus passos plausíveis. Aliás as conversas que tenho tido não têm tido passos sequer. Plausíveis ou não.

Mas esta conversa não estava a ser como as outras e eu não me queria deixar catalogar com uma frase tão óbvia. Ou tão oca.

“Tenho amizades, amigos não. Não cultivo amigos é só isso”. Sorri. E arrependi-me logo de seguida.

Conhecemo-nos há menos de uma hora. Estávamos os dois na livraria a folhear a mesma revista, na mesma página e rimos ao mesmo tempo da mesma parvoíce.

Daí até estarmos sentados à mesa de um café não foi só um passo, mas sim uma série de passinhos que ela me obrigou a caminhar. Uma coisa é olhar, e sorrir para o outro ao mesmo tempo, e deixar a coisa por aí, outra é perguntar-me “o que é que eu acho” do autor do artigo.

“O que é que eu acho?” pensei para comigo. “Como assim, o que é que eu acho? Acho um monte de coisas, e então?”

Respondi-lhe: “gosto muito”. Sorri. E arrependi-me logo de seguida. Raisparta, já sinto a enciclopédia a borbulhar dentro de mim e mais minuto menos minuto vou começar a debitar toda a trivia de que me consigo lembrar sobre o Vonnegut e não vou conseguir parar. Merda. Já está.

Ela olha-me com um sorriso que tanto pode ser assustado, desconfiado, condescendente ou maravilhado. Excluo logo maravilhado. Decido parar de falar. Pode ser que ela pare de sorrir.

Não só não pára como diz: “Está muito ocupado agora? Isto não é nada o meu género, mas gostava mesmo de continuar esta conversa sentada. Chamo-me Teresa, já agora.” Eu digo que não, que não estou nada ocupado. Ainda me passa pela cabeça perguntar-lhe quem é que poderia estar muito ocupado a ler revistas numa livraria, a meio da tarde, mas evito a tempo. Ela continua a sorrir, à espera que eu diga mais qualquer coisa, mas não me sai nada.

“Vamos então?” Faço um gesto largo com a mão, como quem a convida a ir à frente, inclinando ligeiramente a cabeça, bem-educado mas não subserviente.

Vi isso num filme antigo com o Burt Lancaster a fazer de nobre italiano e como achei muito chique, passei a copiar. Isso e o hábito que o Benny tinha de sincronizar o aperto de mão com uma ligeira inflexão da cabeça para a frente. Vi-o a fazer o gesto anos e anos e poderia jurar que quase se ouvia o bater dos tacões dos sapatos. Ele diz sempre “entzückt” e não “servus” ou “grüssgott” como seria de esperar de um vienense da nossa idade quando é apresentado a alguém. Pensando bem na idade, ele é a única pessoa que eu conheço que beija, muito sério, a mão das raparigas, mas para isso já me falta a lata. Comecei demasiado tarde.

Ela pergunta-me se conheço algum sítio perto que não seja uma pastelaria barulhenta. Claro que logo à noite, quando estiver em casa vou-me lembrar de vinte sítios maravilhosos para se estar e conversar, mas isso é logo à noite. Neste preciso instante não me lembro de nenhum, a não ser pastelarias barulhentas. “Este não é bem o meu bairro” desculpo-me, “assim de repente…” Olho para o tecto da livraria e reparo pela primeira vez nas esculturas de querubins em talha de madeira. Os querubins não ajudam. A bem dizer até parecem ter percebido o enorme vazio que vai na minha cabeça e o quanto isso os diverte.

“Ah! Mas sei eu de um sítio ideal” diz a rapariga e com isto põe-se a andar. Não sei bem se devo segui-la, mas na dúvida vou atrás dela. Sem parar, volta-se para trás e sorri outra vez como quem está a jogar a qualquer coisa. Vai num passo decidido que eu acompanho como se o tivesse feito desde sempre. Lanço um “pfff” superior aos querubins.

Saimos da livraria e logo após duas esquinas entramos numa casa de chá. Do lado de fora parece uma padaria do século dezanove, mas na montra diz de facto “Casa de Chá”. Lá dentro não está ninguém a não ser o empregado por detrás do balcão que regista a nossa entrada com o esboço de um “boa tarde” ligeiramente murmurado.

Não trocámos uma palavra desde a livraria. Sentamo-nos. Ela coloca uma pilha de livros em que eu não tinha ainda reparado em cima da mesa, mas com os títulos das lombadas de pernas para o ar. A única coisa que me ocorre é que vai ser difícil tentar ler o título dos livros discretamente e falar ao mesmo tempo. Este género de problema pode consumir partes substanciais de alguns dos meus dias e hoje é um desses dias.

Há qualquer coisa de familiar aqui. Assim que me sentei ainda achei que pudessem ser os tampos de mármore redondos das mesas mas agora já não tenho a certeza. Se calhar é a acústica, meio abafada pelas cortinas de veludo nas janelas. Ou então é o cheiro a marzipan e a chá preto. Quase me espanto quando o empregado se aproxima da mesa e nos pergunta, não em alemão, mas em português o que é que queremos tomar.

A Teresa fala numa torrente de palavras que não jorram, brotam literalmente da palavra anterior. Um fluxo constante e melodioso e eu não estou a apanhar metade. O Benny diria que eu estou perdido nos olhos dela, mas o Benny sempre largou estas banalidades no ar como se estivesse à espera que o próprio Shakespeare aparecesse nesse instante para lhe perguntar se podia usar isso na sua próxima peça.

Não, o que me fascina é a voz. segura, colocada e com uma amplitude que faz lembrar uma variação de Goldberg. Sempre as mesmas três notas, mas com que abundância de combinações. E está habituada a conversas, nota-se pelas pausas intuitivas que ela faz para fazer com que eu vá dizendo qualquer coisa. E eu vou dizendo. Sempre em discussão acesa comigo mesmo, reprovando a facilidade com que me entrego a um debate cujo pico creio conseguir adivinhar.

Dela já sei que é mais nova do que eu (não muito), que é divorciada (muito) e que “vai fazendo uns negócios” (muito poucos), eufemismo que me leva o seu tempo a traduzir em “tenho dinheiro na família, faço negócios para não me aborrecer”. É bonita, quero dizer tem as medidas certas, a roupa certa e o sorriso just-like-so. Não custa perceber que deve fazer sucesso sem se esforçar, se bem que não pareça preocupada com isso. Nem com fazer sucesso nem com esforçar-se.

Noutra altura ter-me-ia apaixonado por ela antes dela sequer pegar na revista. Hoje estou ainda a decidir se estou ou não zangado por me ter deixado arrastar para um sítio onde não tenho pé.

Por enquanto vou nadando.

“Isso não pode ser. Se não tens amigos, está na altura de arranjar uns. Nem que sejam os meus”, diz.

Ainda me pergunto se vale a pena explicar-lhe exactamente o que é que eu queria dizer com isso dos amigos, mas desisto. Ela vai querer ter mais da minha vida, eu sei, e não vou conseguir convencê-la agora de que algures no futuro lhe vou decepcionar uma expectativa qualquer que ela está laboriosamente a construir neste preciso momento.

A única coisa a fazer é tentar que ela perceba já a amplitude das suas futuras desilusões. Assim, para ela, sou uma pessoa sem amigos. Isto para já.

Se calhar depois explico.

 

 

• • •

Who I Am Not

IMG_20160821_200953

 

This is the new fucking normal, isn’t it just?

All the little silent betrayals which you catalogue as inconsequential because you’ve managed to navigate around mentioning them. Little do you realize that the reason they’re so easily discarded is because you’re not actually betraying anything: even the slightest hint of something laudable enough to betray would make them impossible to circumvent.

I needn’t play along, do I?

I remember these exact words: “None of this is who you are nor is it who you are not.”

 

 

• • •

The Immorality of Sloth

IMG_20160723_182445

 

It doesn’t really matter whether you’re first rate, second rate, or third rate, but it’s of vital importance that the water finds its own level and that you do the very best you can with the powers that are given you. It’s idle to strive for things out of your reach, just as it’s utterly immoral to be slothful about the qualities you have. You see, I’m not fundamentally interested in the artist. I use him to try to become a happy man, which is a good deal harder for me. I find art easy. I find life difficult.

Lawrence Durrell — Paris Review interview

 

 

• • •

A Rapariga Que Só Olhava às Vezes, Talvez

Só voltou a casa do João dezoito anos depois.

Já não era a mesma casa, claro. A festa, essa, parecia exactamente a mesma. Até a Laura estava lá, como se o destino quisesse com muita força e simultaneamente atar pontas soltas e mostrar-lhes outras que nunca seria possível atar.

Lembrou-se de como ela o tinha acusado na altura de falta de humildade e o quanto isso o confundira. Só agora, passados estes anos todos, se apercebeu de que quem tinha razão era ela. Não porque não tivesse sempre suspeitado isso de si, não: era mais por ver esse seu perfeito defeito ser-lhe mostrado, ser-lhe devolvido, carregando dezoito anos de silêncio ou dezoito anos de pequenas e insignificantes tragédias, o que vem dar ao mesmo.

Encolheu mentalmente os ombros a meio da conversa com a Laura, sorriu, pediu desculpa e afastou-se. Ter que se explicar em voz alta ainda o assustava com a mesma violência de sempre. Noutra altura, pensou. Ou então nunca. Agora é que não.

Só reparou na rapariga que parecia olhar porque o João falava com ela, apontando-o com o dedo. A rapariga olhou e não pareceu particularmente intrigada. Sorriu-lhe ao passar por ele, em passo rápido. Ele só teve tempo de reparar que era bonita, que o olhou directamente nos olhos e que dela emanava um qualquer desvairo que se adivinhava impossível de qualificar. Tentou esquecê-la logo ali. Conseguiu.

Como sempre nestas ocasiões ia bebendo e falando por não ter mais nada que fazer, apostando consigo próprio a cada conversa que era capaz de classificar os contornos do interlocutor do momento, antes mesmo de ele os explicar; inevitavelmente cediam à tentação de o fazer. Chegou a pensar, assustado, que essas confissões pudessem ser uma norma social que ele desconhecia por completo, obrigatória em agregações de pessoas nestas festas. Para não pensar mais nisso decidiu que devia ser simplesmente porque apesar de cada um verificar os seus alicerces de maneiras diferentes, muitos, como ele próprio, acabam por explicá-los da mesma maneira. Seja como for, foi ganhando as apostas que, uma vez ganhas, se tornavam irremediavelmente aborrecidas.

Pelo meio, muito de vez em quando, via a rapariga, do outro lado da sala. Não chegou a perceber se ela olhava, por muito curtos momentos, com o mesmo olhar directo ou se era ele quem o imaginava. Ela acabou por se ir embora, muito antes dele, a quem sobraram dias a lutar com a incerteza. Não sabia se era ela quem olhava e se sim, para que olhava.

Não era importante que fosse bonita, apesar de ajudar, claro. O que o deixou inquieto foi a suspeita, numa microscópica fracção de segundo, de que só havia duas explicações igualmente aterradoras para o olhar da rapariga, que bem podia não ter sido nenhum.

Podia ser engano seu e então o seu próprio desvairo não tinha um lar, ou então, e pior ainda, não era engano e tinha.

Como nunca mais a viu, nunca iria saber e isso serviu-lhe de consolo.

• • •

To Not Think at All

IMG_20160803_140312

 

“The martini felt cool and clean […] I had never tasted anything so cool and clean. They made me feel civilized. I had had too much red wine, bread, cheese, bad coffee, and grappa. I sat on the high stool before the pleasant mahogany, the brass, and the mirrors and did not think at all.”

Ernest Hemingway — A Farewell to Arms

 

 

• • •

Keine Ahnung

keine_ahnung

 

Noch jede Frau, die er umarmt hatte, fühlte sich geliebt; jede aber, die er wirklich zu lieben begann, sagte ihm früher oder später, daß er, wie alle Männer, von Liebe keine Ahnung habe.

Max Frisch — Mein Name sei Gantenbein

 

 

• • •

Infinites

room

 

Listen, listen:

Do you sometimes wonder if it could very well be that inner boundaries don’t change as often as we think, that there’s a possibility of purity in unstudied declarations?

As if not knowing where we’re running to was the only way to establish glorious, infinite epiphanies.

You know, just running on.

 

 

• • •

So What

IMG_20141130_124909

 

I think I get it or at least parts of it: it’s mostly about the territory and not necessarily a genuine yearning.

This is all not to say that it isn’t legitimate, it absolutely is.

I just wish it were simpler however unlikely and (maybe) painful that sounds.

Someday, who knows.

 

 

 

• • •

The Part That’s Not

mirror

 

It begins like this (I think):

I am not of you. It’s either the other way round or both or none.

You can call it a shitty welcome I suppose, but then again I was just standing here, clearly not longing after amelioration: if at all, that only happens after it’s begun.

 

 

• • •

Yes You Do

IMG_20160507_102218

 

It can sometimes be exasperating to yet again find out that reality can’t be forced, even when you try your best to not be aware of either reality, or of forcing it.

As if this obliviousness could transform it all into a charming little equation, one with a soothing moral balance leaning towards fairness (independently of what “fair” means to you.)

Contemplate, rather. Don’t you know that the shapes you assemble aren’t figments?

Yes you do.

 

 

• • •

The Short Night

cascais

 

Nothing happened yet everything was just right. The night was short but carried with it an intangible melody that no one seemed to notice.

Maybe because we didn’t pay heed to all the tiny twitches of light: we were lost in their lithe concert, more eloquent than any single one of them.

Maybe because it was the first night or the last one or both.

Somehow, we were not surprised.

 

 

• • •

Doubt

Joël Andrianomearisoa — The Labyrinth of Passion

The Labyrinth of Passion by Joël Andrianomearisoa

 

You are never dedicated to something you have complete confidence in. No one is fanatically shouting that the sun is going to rise tomorrow. They know it’s going to rise tomorrow. When people are fanatically dedicated to political or religious faiths or any other kinds of dogmas or goals, it’s always because these dogmas or goals are in doubt.

Robert M. Pirsig — Zen and the Art of Motorcycle Maintenance

• • •

Next

Untitled by Patricia Geraldes

untitled by Patricia Geraldes

Look,

Since I imagine that you just assume that I know what to do next, let me be perfectly clear: I have no clue.

What’s more I’m not even certain that a “before” exists to command an hypothetical “next”.

(But I wouldn’t mind at all if it did.)

• • •

Spectacle

spectacle

 

The occupational hazard of making a spectacle of yourself, over the long haul, is that at some point you buy a ticket too.

Thomas McGuane — Panama

 

 

• • •

Saving Grace

stop

There isn’t one, is there? You thought that walking away would protect you from the cold, didn’t you?

You were oh so sure that it would be enough to cobble up a fortress built by Nature for herself against infection and the hand of war, but it never was, how could it?

On the other hand it is all so pretty and you’ve been told that pretty suffices.

 

 

* and yes, I do know whom I misquote.

• • •

Paradox

The Window Pardox

Doesn’t this urgency to publicly announce your impregnable privacy and wise majesty strike you as a bit of a paradox? It’s as if you would open a window to proclaim to the world that it is closed.

Did you ever consider that the world might not care whether it’s open or not?

• • •

Nothing To Add

ze.fontainhas_1456416216_hd

This is all there is, sorry.

Just a few qualities and many shortcomings (all of which vary over time, true, yet their relative proportions stay constant.)

Granted, none of this is in any way remarkable but I hope it presents an explanation, or maybe simply a sufficiently valid reason as to why I have no opinions to offer about this particular predicament or enchantment of yours.

Even if I wanted to I’d still have nothing to add.

• • •

Signs & Milestones

shoes

 

He said that he often thought about those signs that we’re absolutely certain to have shaped significant decisions in our lives. About how we’re generally inept at reading signs at all and then arbitralily choose some to be more relevant than others. I wonder, he said, if the signs we’re most inept at reading aren’t exactly the ones that actually matter most instead of the ones we single out.

Then again, we could be simply misinterpreting not the signs but that which we promote to be our life’s milestones.

 

 

• • •

Oh Well

pout

Image © Lotus Carroll

What’s surprising (to me) is not so much that we harbor childish reactions beneath a veneer of maturity, that much is obvious.

It’s rather to discover that the veneer is paper-thin, and especially that none of this makes it any thicker.

• • •