Dobra

 

Há uma dobra inevitável por muito que se queira adiá-la apesar dos livros de auto-ajuda te dizerem que não é obrigatório que ela dobre para pior mas já sabes muito bem que quando te dizem que seja o que for não é bem assim é porque sim é sempre assim e se calhar têm receio por ti por osmose ou por vaidade ou por dor alheia mas sem perceberem que essa dor que lhes é alheia não lhes dói da mesma maneira que a ti por não conseguirem dar o braço a torcer da sua mentecapta e obsessiva positividade não podia nunca ser então as pessoas iam achar pesado e o pesado é demasiado pesado apesar de ser real mas o que é real dá muito trabalho e é preciso pensar e ninguém tem tempo para isso e mais para mais o que é que as pessoas iam achar iam achar pesado afinal de contas não se pode confundir as declarações de afecto que te vestem de lantejoulas com o trabalho chato e pesado de desenvolver real afecto onde é que isto ia parar sim onde com a contagem de seguidores do instagram a minguar a falar de dobras que talvez possam ser duras e dolorosas e pesadas isso são coisas que talvez existam mas não tendo likes que cheguem pensando bem talvez não existam é sempre melhor sorrir e dizer as palavras profundas que não são pesadas e não olhar para dentro da dobra de ninguém muito menos da própria.

 

 

• • •

Nós

 

Desculpe mas eu não sei quem você é não existe aqui nenhum contexto em que essa sua estranha curiosidade seja conveniente eu não perguntei nada de significativo ou revelador de propósito e sim acho que é normal eu esperar que retribua a cortesia uma vez que não temos doze anos e portanto tenho quase a certeza que nem você nem eu temos vagas disponíveis para a posição do profundo dialogante quer a posição esteja por preencher ou não pensando bem até é um bocado suspeito que tenha sequer a mais pequena das compulsões para definir isso como uma lacuna que é preciso corrigir basta falar do tempo ou dos livros dos filmes do teatro ou da inocência das crianças ou da desesperante trivialidade da vida essas coisas todas todas elas perfeitas para serem imediatamente esquecidas porque acredite que já não consigo mesmo lidar com a tentação de desfazer nós para ver mais nós com a tentação de nos desfazer a nós para nos ver a nós.

 

 

• • •

Tão Longe

 

Não não vale a pena juro deixa estar não te preocupes nem um minuto com isso são angustias pequeninas e problemas infantis e nós antigos tão idiotas que já não vale a pena desfazer é muito tarde e o tempo que sobra é pouco para quê afinal ia acabar por azedar tudo e preferia que não dessem por mim ou que dessem talvez às vezes não sei bem mas é porque vem de longe sabes como se planta uma figueira talvez sem pensar muito nisso porque é bonita afinal sei lá e porque os figos sabem bem sabem a possibilidades sabem a verão com pinhões torrados e ricotta e mel por cima talvez mas de repente tens o jardim invadido e deixa de te apetecer isso tudo mas reparas que é tarde e que agora vais ter de viver com os figos e pensas que se lixe não faz mal assim como assim um dia vou-me embora e isto vem tudo de tão longe.

 

 

• • •

Ästhetische Erziehung

 

Slow down shut up refuse to play don’t pretend you know apologise maybe drink water remember the water.

 

 

• • •

Agora

 

Já sei agora já sei é só que tinha medo que fosse tarde demais espera espera espera deixa-me dizer-te pensando bem não te quero dizer dá-me igual que percebas ou não tu não fazes ideia se é tarde não sabes nem sabes nem podes sequer saber caga nisso agora já não é agora já foi agora é uma promessa é uma memória não é nada que eu saiba não é nada que tu possas perceber nem sequer é preciso que possas porque eu sei mesmo talvez sendo tarde eu agora já sei que afinal nunca é tarde porque é agora.

 

 

• • •

Lundi

 

Não havia plano nenhum para além de ir para Paris e morrer num sítio bonito passar umas semanas ou uns meses a passear e a comer bem e a não falar com ninguém nem de viva voz nem por telefone nem por email nem nada bonjour madame bonjour monsieur je peux vous aider ah non merci c’est gentil je regarde juste merci um silêncio absoluto de diálogo pessoal uma dedicação ao sorrir a vistas e a cheiros e a barulhos sem pensar sem pensar em nada sem pensar e depois simplesmente e sem alarido evaporar-se sem um grande plano mas com o que havia e quanto mais pensava nele menos mal ele lhe soava não fosse a segunda-feira para a semana que vem decidiu sim para a semana que vem só devia era haver uma segunda-feira por mês.

 

 

• • •

De Certeza

 

Se calhar é por me sentir cercado por essas certezas todas pelos absolutos os absolutos assustam-me particularmente os que são sobre mim provocam-me uma urticária defensiva dão-me um pânico incontrolável uma compulsão para fugir combinada com um outro pânico de não querer não poder mostrar que quero fugir e a sensação é-me tão desconfortável que me basta apenas pensar nisso para me apetecer enfiar a cabeça na areia e nunca mais a tirar de lá mas imagino que existam as incertezas exactamente certas mas não tenho a certeza talvez.

 

 

• • •

Logo Se Vê

 

Suponho que, tal como a maioria, tenho uma ideia de mim mais romântica do que aquilo que sou na realidade. Isto não é em si um problema, a menos que se admita que possa existir uma qualquer autoridade superior credenciada para distinguir a diferença e em quem, sem reservas, deveríamos acreditar (não me parece que exista).

Problema é muito mais, quando por acaso me assaltam vislumbres dessa dissonância, convencer-me que em nome de uma teórica harmonia é absolutamente necessário afinar comportamentos e filtrar pensamentos, quando afinal nunca chego a sair de mim, porque não é possível.

Ou seja, é verdade que me vou esquecendo de como era o futuro, mas não faz mal.

 

 

• • •

Control

 

I sometimes wonder how I’ve managed to carry on this long, always on the brink of doing or saying something very very stupid.

You wouldn’t know, of course: you think I’m in control.

 

 

• • •

Taxa

 

For the sake of argument, let’s assume that any person can be mostly described by a finite set of adjectives and that, were the individual elements of said set to be presented in the proper, perfect sequence it would make them, without the need for further elaboration, immediately able to identify that person , even if only in passing.

Let’s also assume that, at some given point in time, you’re the one being ascribed these particular taxa, whichever they may be. Of course, by definition, you have no say in the purpose, methodology or combinations that this amalgam creates; they will very likely be foreign to your own internal representation, even if sometimes there’s an overlap (and, by the way, you do know that the overlap is a coincidence, not an affirmation, right?)

Will you wear the words? Will it hurt to realize how unfair or incomplete they appear to be? Will it delight to discover how much more they seem to reveal? Will you care at all? Or will you ignore them and look at what was before they were uttered, before the miasma that birthed them, even?

We do this all time and never realise that to give them any importance, is a lie. This new image they create will only make your incompleteness, well… closer to being complete.

The universe doesn’t care about you; it isn’t good or evil.

It’s just indifferent.

 

 

• • •

Wütend, aber Schwach

 

Sarcasmo ou silêncio, as tais flores carnívoras nascidas de uma simples semente de repulsa, regadas na medida exactamente certa pela puta da doença de nunca ter conseguido aparentar ser quem sempre tinha achado ter merecido ser.

 

 

• • •

What To Do

 

— Look, I’m sorry. I am painfully aware that I ought to have gathered the courage or the patience to tell you to go fuck yourself, but I’m still not sure I ever will. Perhaps I find it painful or else, by now, simply moot. Clearly, I have not thought this through, seen that I’m not even sure that the distinction is important.

— Have you really just told me to go fuck myself?

— It doesn’t really matter anymore, I’m sure you’ll know what to do.

 

 

• • •

Cheap Paint

 

This mantra of “forgiving yourself no matter what”, is deranged; not only does it assume merit by default, but also (and this is the truly demented bit), tries (and fails) to erase the unforgivables, as if their gravity couldn’t possibly have a pull that’s worth considering.

It’s a thin coat of cheap paint, and it will inevitably peel off.

 

 

• • •

The Feel-Good Rethoric

 

Looking at this construction at a remove, it’s easy to see the trap. Setting out to love yourself because that’s the only way to gain love from others is a knot that undoes itself when pulled; needlessness as the tactic to get something one needs is impossible. But it’s an attractive emotional tautology in part because it keeps those who subscribe to it trapped in its hamster wheel, forever able to blame ourselves for wanting, when the fact of wanting is both the reason for never finding a relationship and the proof that we are not ready for it.

Helena Fitzgerald — There is no such thing as being ready for love.

 

 

• • •

Calamity

 

It’s maybe a pity that we usually trust potent first impressions, programmed as we are to not question the paraphrasing of character, no matter how skewed or suspicious it may appear. If it is charming enough, we can’t even distinguish that which in hindsight is clearly a patchwork of unconnected traits which appear to be uniquely interesting.

By default, we give such persons the benefit of the doubt, I suspect, because there is something vaguely addictive to finding ourselves in the position of the ones being picked apart, analysed, dissected, and yes, cajoled; the immediate rush of a false sense of importance hides the true nature of what we desperately want to classify as an exchange, but is nothing of the sort.

It’s a con and we’re the mark, soon replaced by the next one. Since their capacity to understand the true depth of what they are borrowing is limited (were they to understand that depth, they wouldn’t need to borrow anything, to begin with, of course; it would have been built over time, unique, impossible to copy), quickly drained, they permanently need fresh new material to borrow from.

Later, our surprise at how easily we fall into this trap, at discovering that this isn’t a real person, but rather a palimpsest of fragments of poses, like years of concert flyers pasted upon each other on a phone booth, wearing off unequally over time like a meaningless and dysfunctional collage, and at how people like these, nowadays, are the very definition of success and aplomb, is wholly unjustified: we’re the ones feeding it.

All things considered, it could be worse, we could be them: assuming that they even get that far, it has to be a fucking calamity to realise that you have no character of your own.

 

 

• • •

Ineptitude

 

— Oh boy, I’m an idiot.

— Well, that’s not a huge surprise then, is it? I mean you’ve known this for a while.

— Right, no surprise there, of course. What fascinates me is the consistency with which I keep going at it, since… well… forever.

— Maybe you’re hoping that outright persistence will trump observation, or something?

— Oh no, no matter how much I wish it were so much more than an ode to ineptitude, it just fucking isn’t. Oh well.

 

 

• • •

The Price of Revelation

 

All I know is that there is a door.

I don’t know where the door is exactly, but the one thing that gives me hope is knowning that whatever is on the other side of it, is nothing like anything on this side. It may be better, worse or else entirely different. Also, I am convinced that being unable to anticipate the pain is precisely what makes the prospect of opening it so terrifying.

Then again, that’s probably because I don’t really understand, can’t really understand, the insignificance of the imagined price to pay for the ἀποκάλυψις.

Still, it’s an exit. Or an entrance.

I can almost touch it now.

 

 

• • •

Vultures

 

It’s difficult to admit that we all, without exception, regardless of how certain we are of the purity of our intentions, have occasionally plundered and fed on others.

It’s not commonly considered noble to do so, much less to flaunt it, true, but the fact that it afflicts us all, gives me some degree of consolation when instinctively distrusting the fervent affirmations of the pious.

I always thought I was being unfair, up until it dawned on me that the people worth paying attention to, are exactly the ones who talk to the predator in them, and have no, or little, illusions about their fate in the court of “pleasant manners”.

Not that I’m defending “radical candour”, that repugnant expression apparently meant to elevate “being an asshole” to a posture that’s acceptable and worthy of consideration, no.

Maybe I’m saying that unleashing the beast is fundamental, but only proper when you turn it into art.

 

 

• • •

É sempre assim

 

É tarde, não é?

Já é outra órbita, mais lenta, mais larga, mais esquisita, mais esquisita para ti, que ainda não chegaste ao pátio vazio (solarengo, sim, mas vazio), aquele onde te apercebes que afinal a tua órbita tem tanto de inevitável como de impossível, e que só pode mesmo ser assim.

É sempre assim.

Quem me dera conseguir explicar-te. Quem me dera conseguir não querer explicar-te, tanto. Quem me dera que não fosse assim.

Mas não, é sempre assim.

 

 

• • •
1 2 3 18